Arquitetura da Desconexão

Não sei você aí, mas aqui com 32 anos é bem comum me sentir desconectado da vida, de mim, das pessoas e do mundo…

Tudo parece não fazer sentido e nada parece fazer sentir.

Uma sensação de não pertencimento me consome, passo a operar no piloto automático, me estresso e começo a ser alguém que não me reconheço. Se me descuido, deixo de lado para cumprir uma função para alguém a ponto de esquecer quem eu sou de fato.

Só que recentemente, me reconectando com conceitos que aprendi há alguns anos na faculdade de Teoria U e o Mindfulness através de uma palestra, ouvi um termo que mudou minha percepção sobre esse sentimento de desconexão…

O termo é Arquitetura da Desconexão.

Esse termo me levou a brisar dois caminhos: um de que existe um desenho que nos leva a desconexão (isso na Teoria U é bem legal e ilustrado).

O outro de que somos nós mesmos os arquitetos da nossa própria desconexão. Ou seja, somos nós os responsáveis pelo desenho que nos leva ao comportamento desconexo, desenhando cada traço da nossa desconexão a cada hábito, atitude e decisão que tomamos que nos afasta de quem somos, do que acreditamos ser do bem e para o bem de nós e de todos.

Tomados por ansiedade, traumas mal resolvidos, medo e outras mazelas da alma, arquitetamos nossa própria ruína.

São ações superficiais, efêmeras e geralmente que nos proporcionam algum tipo de recompensa ou alívio imediato as mais perigosas ao nosso ser essencial.

Ações que nos tiram reflexão profunda e proporcionam apenas prazer ao corpo que carrega o espírito machucado.

Mas por que então permitimos tanta desconexão diariamente?

Me parece que por pura preguiça, egoísmo e fragilidade.

Preguiça porque todo cuidado dá trabalho, é cansativo e tedioso.

Cuidar é um processo lento e longo.

Cuidar do corpo exige atenção e vigilância constante com a alimentação e exercícios físicos.

Cuidar do amor exige atenção, tempo e doação para com o outro mais que com nós mesmos.

Não cuidar é mais fácil e rápido. Se esconder atrás de desculpas e se colocar no lugar de vítima das circunstâncias é mais cômodo que aceitar com coragem e compaixão as cartas que nos foram dadas.

Egoísmo porque ter compaixão exige genuína humildade.

Compaixão para aceitar o outro, suas opiniões e maneiras exige maturidade.

Maturidade é estar conectado com nossa essência e o momento presente.

Só através da maturidade chegamos ao ponto de ter compaixão pelas dores, amores, sofrimentos e alegrias que não nos pertence.

Só assim podemos agir com humildade perante aos outros que cruzam nossa jornada.

Não ter maturidade é agir com egoísmo de nós colocarmos ao centro de todas as ações alheias e nos preocuparmos apenas como nos sentimos frente ao mundo. É crer e viver sem considerar como nossas ações interferem absurdamente na vida daqueles que cruzam nosso caminho.

Fragilidade porque conexões profundas exigem resiliência para suportar momentos de dor, solidão e medo.

O efêmero é raso, simples e não exige esforços, mas para buscar conexões profundas em nós e com os outros precisamos seguir firmes e por um bom tempo.

Só assim podemos alcançar a essência das coisas e as coisas que fazem parte de sua essência.

Para isso, é preciso grande encontro e fidelidade aos nossos valores, ideias e crenças de conduta.

É preciso aceitar porém nossa fragilidade, nossa carne fraca e desejo instintivo.

No entanto, também se faz necessário compreender que sentimento não é sinônimo de conexão verdadeira, mas de processos alquímicos que tomam conta do nosso estar.

Afinal nosso estar pode estar longe do nosso ser essencial, dos nossos valores, das nossas condutas genuínas.

Tudo isso por estarmos em desconexão com quem somos e com os tantos mundos que habitamos diariamente no trabalho, relacionamentos, família…

Desconexão que não é imposta pelas circunstâncias, mas arquitetada pelos demônios que alimentamos em nós.

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