Sobre Saborear Discos de Vinil e Obesidade de Conteúdo
Existe uma magia única em passar por uma rua, ver umas caixas de vinil na frente de um café, parar e levar para casa alguns discos que você não tem ideia do que tem.
Uma magia que vem de um encontro tão raro hoje em dia.
Um encontro com o acaso, com o caos, com o destino.
Quantos micro eventos tiveram que acontecer para um daqueles discos parar na sua casa tocando na sua sala?
Quantas pessoas, histórias e vitrolas esse disco já conheceu antes de conhecer você?
E ali não tinham todos os discos do mundo à sua disposição, você também não poderia levar todos para casa e nisso, acontece outro encontro mágico.
O encontro consigo mesmo, pois naturalmente existe intenção, carinho e foco no que é certo para você.
Você intencionalmente repousa sua atenção na escolha dos discos em algo que lhe rouba atenção por conhecer o nome do artista, ou de repente a imagem da capa que te lembra alguma coisa, ou simplesmente porque te deu uma vontade inexplicável de levar um disco específico.
É só sobre você e suas escolhas.
Nos deixamos levar por conversas com outros entusiastas e colecionadores, nos deixamos encantar por viver e observar o momento da nossa curiosidade. Compramos alguns discos e levamos para casa apenas a ansiedade pela descoberta.
Na hora de chegar em casa para tocar, outro momento de muita atenção acontece…
Diferente de qualquer outro meio de ouvir música, é preciso colocar o vinil, ligar a vitrola e quando acabar um lado, trocar para o outro.
Não dá pra pular música num simples toque, não dá para voltar arrastando o dedo pela tela, não dá para colocar numa playlist.
É preciso saborear todos os temperos que o disco pode te oferecer com calma.
Temperos doces, amargos, salgados, azedos, ácidos…
E é engraçado como não existe necessariamente um tempero bom ou ruim, mas apenas o prazer em estar presente sem julgamentos e aberto para saborear todas as notas e nuances que o destino colocou na nossa frente.
Existe uma magia única em experiências como essa que nos conectam mais com nós mesmos, nossa alma e menos com tudo o que é possível.
Esses dias ouvi não sei aonde uma frase que cunhou um termo que me fez total sentido:
“Vivemos um sério problema de obesidade de conteúdo.”
Desconhecido
Nossa gula por mais nos tornou obesos e não sabemos diferenciar os sabores das experiências que vivemos por estar sempre em busca de mais informação, mais conteúdo, mais, mais, mais e mais.
A entrega é na tela, sentado no sofá e isenta de qualquer mágica.
O olhar é viciado, não intencional, ansioso e frenético.
Podemos ter evoluído a tecnologia, mas nossa alma segue a mesma
Acho que por isso que as gerações mais novas têm se voltado pra fora da internet, perdido interesse por tudo isso e com ar de nostalgia.
Talvez exista esperança.
Talvez precisamos estar cada vez mais conscientes do tipo de conteúdo que consumimos – já que hoje o banquete está sempre servido.
